Romulo Vieira

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Quarta-feira, Julho 15, 2009

Presente Ausente


Havia me tornado um fumante inveterado. Desde o momento que comecei a esperá-la até agora já haviam se ido 4 maços cheios.
Fui vagando por aquelas ruas desertas... Havia muito movimento, mas eu estava sozinho. Preso e absorto pelas minhas idéias, pelos meus ideais e pelas minhas ilusões.
E pela primeira vez vi Anne como ela realmente era. Ela não se importava comigo. Quer dizer, se importava. Gostava de mim. Mas gostava mais dela, gostava dela em demasia. E o egoísmo dela se sobrepunha a vontade dela de me ter ao seu lado.
Eu não era o tipo de cara que interessava a ela... Anne era moderna, descolada, andava de moto. Eu andava de camelo. Apenas um sujeito desinteressante que fazia parte de um velho mundo que ela havia deixado pra trás fazia muito tempo.
E hoje eu estava vendo isso, naquele momento eu via isso. A ausência dela já não me importava tanto. Porque mesmo na presença, ela era muito ausente. Raros eram os momentos de presença, de entrega.
Então comemorei ela não estar ali, não saberia mais como me comportar na sua presença.
Fui ao velho parque da cidade, me deitei na grama e abri o quinto maço de cigarro.

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Segunda-feira, Maio 04, 2009

Meu Godot


Peguei o papel com o endereço do restaurante que ele me esperava e corri pra lá. Ele devia estar muito puto. Com razão. Ele era certinho demais, metódico demais, não suportava atrasos de jeito nenhum. Corri. O restaurante estava próximo. Achei. Entrei.
Era um restaurante pequeno, aconchegante, agradável. Eu estava bufando de cansaço. Olhei para os lados e não o encontrei. Filho da puta. Atrasado. Mas logo ele?
Pedi uma mesa de canto pro garçom e me sentei para esperá-lo. Acendi um cigarro. Sempre apelo para o tabaco quando estou nervosa. O garçom quis saber ainda se eu desejava alguma coisa. Vocês servem morfina? Heroína? Cocaína? Então apenas uma dose de vinho Malbec, por favor.
A demora dele estava me angustiando, me deixando irritada. Quis acender outro cigarro. E mais outro. E outro. E outro mais. Vários cigarros. Todos ao mesmo tempo. E nada dele aparecer. Já estava certa que ele tinha desistido do encontro. Estava certa que ele tinha desistido de mim.
Logo ele, desistir de mim? Se ele desistisse, quem insistiria? Tinha vários amigos, conhecia muita gente. Na verdade, conhecia muita gente. Não sabia se tinha amigos. Mas com ele eu achava que podia contar. Mesmo que não admitisse pra mais ninguém, sabia que ele me entendia.
Mas ele não estava lá. Não ainda. Não sabia se iria estar ainda. Resolvi esperar, não sabia até quando, até meu Godot aparecer.

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Domingo, Março 01, 2009

E se...


Sorri. Quis me fazer de forte, manter a pose. Estava destruído por dentro. Mas quem se importava? Ninguém, como sempre. Deixei a xícara suja de café na mesa, o cinzeiro cheio de cinzas e bitucas e uma nota de cinco reais para pagar o café de dois e trinta. Achei o preço caro, mas ainda assim deixei dinheiro a mais. Ficaria para a gorjeta. Afinal, o garçom ao menos ficaria um pouco mais feliz aquele dia.
Pensei em ir ao banheiro, lavar o rosto, dar uma revigorada... Desisti. Iria embora do jeito que estava mesmo, danem-se os outros, dane-se ela, dane-se eu. Saí do restaurante e voltei para o mundo, olhei para os dois lados, como se estivesse prestes a atravessar a rua, analisando riscos de ser ou não atropelado. Estava a sua procura. Esperançoso de avistá-la correndo, com alguma desculpa por ter se atrasado. Não a vi, porém. Acendi mais um cigarro. E caminhei.
Não tinha um destino fixo. Estava apenas andando. Pra falar a verdade, não havia me planejado para a possibilidade de ela não aparecer. Falha de planejamento, certamente. Para ela, tudo era possível; pra mim, tudo impossível. Poderíamos nos acertar enquanto amigos, viver saudavelmente. Ela me ligaria pra contar de sua vida, suas aventuras, combinaríamos de ir ao cinema, a peças de teatro... Tomar cervejas. Vinhos. Cachaças.
Ou então, brigaríamos de vez. Ela implicaria comigo o almoço inteiro, estava preparado para aquilo. Eu diria os impropérios que planejei, gritaria com ela, atraindo a atenção de todas as outras mesas para a nossa. Ela se surpreenderia com a minha reação. Logo eu, que sempre fui tão pacífico. O gerente nos convidaria a nos retiramos, eu gritaria com ela pela última vez, jogaria o dinheiro da conta na sua cara, diria adeus e nunca mais a veria.
Numa outra hipóteses, nós ignoraríamos que um dia brigamos. Nem tocaríamos nesse assunto. Pareceria que éramos melhores amigos desde sempre. Beberíamos, ficaríamos completamente bêbados... Rindo, nos divertindo. E acabaríamos a noite num beijo. Que nos deixaria constrangidos o suficiente a ponto de nunca mais trocarmos uma palavra como antes. Teríamos uma relação de oi, como vai. Quanto tempo! Vamos marcar, vamos mesmo! Me deixa um scrap.
Estava preparado para tudo, pensei. Ilusão. Não estava preparado para a ausência dela.

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Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

A Procura


O espelho do banheiro me denunciava. Estava completamente acabada. Qualquer um que me visse na rua notaria isso. Principalmente ele. Mas não eu. Eu achava que estava ótima. Eu estava ótima. Dane-se que meu cabelo estava despenteado, minha maquiagem borrada, minha roupa amassada e o nariz deixando escapar coriza. Eu finalmente agora estava me sentindo bem, finalmente agora estava preparada pra encontrar com ele.
Dei o ultimo confere no espelho. Me ajeitei um pouco. Tentei ao menos. Passei as mãos molhadas no cabelo, tentei limpar um pouco o rímel que escorria e me transformava num panda e coloquei a blusa pra dentro da roupa. Estava pronta. Quase. Passei o batom vermelho nos lábios pra dar o toque final e pronto, estava preparada para encontrá-lo.
Saí do banheiro e encontrei o garçom que havia me permitido usá-lo bem próximo a porta; agradeci e percebi que ele parecia me comer com os olhos. Filho da puta. Aposto que ia tentar entrar no banheiro e tentar me comer. Quis dar um soco na cara dele, chutar seu saco, furar seus olhos. Estava preparada pra ouvir ele me dizer qualquer gracinha, seria o suficiente para eu revidar com uma cusparada na cara e um escândalo que eu já planejara mentalmente. Ele apenas disse: De nada. Covarde.
Saí daquele pé sujo e meti a mão dentro da minha bolsa. Estava procurando o pequeno pedaço de papel aonde eu tinha anotado o endereço do restaurante em que ele havia pedido pra eu encontrar com ele. Reviro a bolsa completamente. Nada. Será que eu tinha deixado cair naquele banheiro fétido? Será que eu coloquei o papel na bolsa? Será que eu anotei o endereço.
Só conseguia sentir ódio. Porque essas coisas sempre tem que acontecer comigo? Coisas que só acontecem com Anne... Peguei o celular pra ligar pra ele e me desculpar pelo atraso e pedir o endereço do restaurante. Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita a cobrança após o sinal. Me segurei pra não deixar um recado xingando ele. Nem pra deixar o celular ligado ele servia? Depois reclama que eu implico com ele... Era a cara dele deixar o celular desligado numa hora dessas...
Sabia que o restaurante era naquela rua. Mas qual deles ? Havia milhares de restaurantes naquela rua. Ok, milhares era exagero. Mas dezenas tinha. Pensei em procurá-lo um a um. Demoraria tempo, mas era a única solução.
-Oi, boa tarde. Por acaso tem alguém me esperando aqui? Meu nome é Anne, o rapaz que ficou de me esperar chama Pedro. È baixinho, bonitinho, magrinho... usa um óculos quadrado, umas roupas de avô.
-Não, não tem ninguém aqui não.
-Oi, boa tarde. Por acaso tem alguém me esperando aqui? Meu nome é Anne, o rapaz que ficou de me esperar chama Pedro. È baixinho, bonitinho, magrinho... usa um óculos quadrado, umas roupas de avô.
-Lamento moça, aqui ele não está não.
-Oi, boa tarde. Por acaso tem alguém me esperando aqui? Meu nome é Anne, o rapaz que ficou de me esperar chama Pedro. È baixinho, bonitinho, magrinho... usa um óculos quadrado, umas roupas de avô.
-Desculpe... Que eu me lembre ninguém assim passou aqui.
Lá pelo sexto restaurante desisti. Resolvi acender um cigarro e lamentar meu fracasso. Meti a mão no bolso e peguei o maço e um pedaço de papel. Lá estava o endereço do restaurante que ele havia me dado.

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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Um café e a conta


Olhei para o meu relógio de pulso. Ela estava atrasada, quatorze minutos. Sabia que não era muito tempo, mas aquilo foi começando a me angustiar. Mesmo com todos os problemas, ela nunca tinha se atrasado antes. Ok, ela poderia ter tido algum imprevisto... Mas não quis saber de racionalidades: A única coisa que eu pensava era que ela estava atrasada. E só podia ser de propósito, pra me provocar.
Isso sim, ela adorava fazer. Dava pra perceber a volúpia na cara de Anne toda vez que ela fazia isso. Era sempre assim: Chegava com um sorriso sintomático, quase formal. Cumprimentava-me secamente e começávamos a conversar. Conversa pra cá, conversa pra lá... E as coisas nunca saíam muito daquele nível. Era sempre falando dela e sempre na superfície. Até a hora que ela se cansava de falar de si e começava a me atacar: Fazia gozação do jeito que eu comia, do jeito que eu falava ou que me vestia. E eu, idiota, sempre caía.
Mais de uma vez prometi a mim mesmo que aquela seria a última vez. Não me lembro mais quantas últimas vezes tivemos. Parecia sempre que era briga de um só. Eu me importava, brigava... Enquanto ela apenas se divertia.
Aquele atraso já estava demais. Apesar de tudo, de todas as brigas e implicâncias, ela sempre ia me ver, sempre cumpriu suas promessas. Sempre ia ao meu encontro. Mas não daquela vez. E uma coisa eu aprendi: Tudo na vida é uma questão de primeira vez. Depois da primeira, a tendência é a coisa jorrar correnteza abaixo.
Me senti um inútil, fracassado. Não era a primeira vez. Pedi um café e a conta. Apenas pra não atrair os olhares reprovativos do gerente e dos garçons. Afinal, estava um tempão ali e não consumi nada. Fiquei apenas quieto, pensando, fumando... Esperando...
- O seu café, senhor. Tem certeza que não vai querer comer nada?
Não, não queria. Preferi apenas o café, por enquanto. Me ajudaria a me manter acordado. Quis continuar sonhando. Ia abrir meu segundo maço de cigarro quando me dei conta da imagem depressiva que tinha se feito de mim. Jogado sozinho numa mesa de canto de um restaurante com uma xícara de café e um cigarro na mão; patético.
Gostei. Acho que sempre gostei de me sentir patético. Fazia as pessoas terem pena de mim.

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Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Eu, Amy. Ele, John.


Andava apressadamente, não iria perdoar qualquer atraso. Sabia que tinha errado, mas havia esperanças que tudo voltasse qualquer chance que tudo voltasse ao normal. “O Sonho não acabou”, já dizia John Lennon. Ele adorava John Lennon. Aliás, ele adorava Beatles. Nossa história foi contada junto a deles. Mesmo que com vinte ou trinta anos de atraso.
Ele era um beatle. Seus cabelos arrumados, óculos de grau, roupa metricamente alinhada. E eu o admirava por isso. Já eu estava mais pra Courtney Love. Ou até mesmo Amy Winehouse. Nunca levei as regras muito a sério. Elas estavam ali apenas para que eu as quebrasse. Talvez fosse isso que ele gostasse mais em mim. Mas não tenho certeza. Ele nunca me disse. E eu também nunca perguntei.
Passamos seis meses sem nos vermos. Apenas rápidos e banais diálogos trocados num comunicador instantâneo da web. Sabia que ele estava “saindo de vez em quando com o pessoal pro barzinho” e ele sabia que eu “tava saindo direto com o pessoal, a galera é muito louca”. Mas isso. Sem maiores aprofundamentos. Não sabia se ele tava com problemas, se precisava desabafar ou mesmo se sentia saudades.
Durante um tempo achei que ele gostasse de mim. Até que acho ainda. Mas também nunca disse isso a ele. Acho que não queria ouvir que ele gostava mesmo e não poder corresponder como ele queria. Ou talvez não quisesse me frustrar ao perceber que eu estivera enganada e ele me quisesse apenas como amiga. Não sabia nem se eu mesma queria ser só amiga... As vezes achava que seria bom ter algo a mais... Preferi a dúvida e por várias vezes até fiz gozação sobre o assunto com amigos em comum.
Aquele encontro não me permitiria mais a menor dúvida. Na verdade percebi que não importava se ele gostava de mim. Ou mesmo se eu gostava dele. O que importava era que eu gostava dele. Definitivamente. Não carnalmente. Isso não importava. A presença dele me fazia bem. Isso eu sabia. Não queria perder aquela pessoa. Não mais aquela, como já havia perdido tantas outras.
Mas, será. Não, definitivamente ele acharia que. Talvez, fosse melhor eu. É, se eu começasse o assunto falando do passado, a reação dele poderia. Escuta! Era melhor parar. Talvez esse encontro não tenha sido uma boa idéia... Mas eu era tão inconseqüente! Havia saído de casa sem pensar em nada, sem pensar no que queria dizer a ele. Ele não, certamente havia programado todo o roteiro. Pensado em cada palavra, cada contra-argumento. Me senti perdida. Me senti derrotada. E só havia uma coisa que eu podia fazer, a única que ele achava que eu não faria: Não ir ao encontro. Ele sabia que eu não queria deixar de encontrar com ele. E por isso mesmo, me pareceu a coisa mais sensata a se fazer.
Mas não, não podia. Eu tinha que me encontrar com ele, pelo menos aquela vez. Que poderia ser a última. Se eu não fosse, ele certamente não iria mais querer me ver nunca mais. E a minha última vez com ele já teria sido. Já pensou que trágico se eu já tivesse tido meu último encontro com ele sem que eu tivesse me dado conta disso? Sem que eu tivesse tido a oportunidade de aproveitar? Iria confrontá-lo! Iria arrumar coragem e já sabia como!
Avistei um botequim perto do restaurante onde iríamos nos encontrar. Entrei, pedi pra usar o banheiro. Baixei a tampa da privada e cheirei uma carreira.

postado por: Romulo Vieira 1:16 AM Comments:



Domingo, Fevereiro 08, 2009

O Reencontro


Já estava aguardando aquele encontro fazia muito tempo. Na verdade, sentia necessidade daquilo desde o princípio. Ela não sabia ainda, mas eu já estava decidido que aquela vez seria definitiva, sabia que não conseguiria deixar pra uma próxima vez.
Estava esperando por ela, mas ela ainda não chegava. Não que estivesse atrasada... Longe disso. Não era do feitio dela. Eu, que na minha ansiedade, chegara ao local marcado com uma hora e vinte três minutos de antecedência. Quis ter certeza de que nada iria atrapalhar: O restaurante precisava ter mesa disponível, não poderia estar lotado, o prato do dia deveria estar do agrado dela e principalmente que a noite de hoje não fosse embalada por nenhum cantor. Definitivamente não estava nos meus planos ouvir um cantor de churrascaria e ainda ter que pagar couvert artístico. Ah, sim! Nossa mesa precisava ser na área de fumantes também. Sempre apelo para o tabaco quando preciso relaxar.
Era exatamente isso que eu fazia agora. Enquanto aguardava sua chegada, fumava. Já era meu quarto cigarro. E ficava me lembrando dela, lembrando da gente, enquanto admirava a dança que a fumaça fazia no ar.
Nos conhecemos havia dois anos. Pode não parecer muito tempo para a maioria das pessoas. Mas para mim não. Eu já sabia que iríamos nos aproximar desde que a vi, sabia que aquela não era só mais uma pessoa. Ficava a sensação de que eu já a conhecia antes. Lembro-me de me pegar olhando-a e tentando me lembrar de onde eu já a conhecia antes daquilo. Até hoje tenho dúvidas se aquele realmente foi o nosso primeiro encontro.
Começamos a sair, nos aproximamos. Para mim aquilo já estava ótimo, mas óbvio queria mais. Queria ser mais próximo (o ser humano obviamente nunca está completamente saciado com o que tem). E de fato fomos tornando-nos mais próximos, a convivência quase diária facilitou isso.
Até que vieram os problemas, causados justamente pela convivência diária. O que eram apenas bons momentos, acabavam gerando crises de stress. Onde havia apenas uma companhia agradável, agora era aquela que mais gozava de mim, a que eu mais percebia piadinhas sarcásticas.
Claro que não era apenas aquilo, tinha os momentos bons também. Mas sempre entrecortados. Fui levando, gostava dela e creio que de alguma forma ela também gostava de mim.
Até que nos separamos, ela foi viajar, morar seis meses em Roma. E eu fiquei aqui, terminando a faculdade de administração. Passamos seis meses sem nos ver, trocamos apenas alguns e-mails e algumas conversas no MSN. E agora ela estava de volta, voltara ao Rio tinha uma semana e marcamos de nos encontrar. Eu precisava daquele encontro, queria olhar pra ela e dizer que gostava dela... E não do jeito que ela achava que eu gostava (Não mesmo! E eu sabia que ela achava). Queria dizer isso, sinceramente. E aí quem sabe, recomeçarmos a sermos bons amigos sem tantos conflitos
Mas quem eu estava querendo enganar? Eu sabia que não conseguiria dizer nada...

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Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

Sinal Aberto

Vinte e oito minutos. Esse era o tempo em que estive ali parada esperando o sinal fechar. É incrível essa matemática dos sinais de trânsito, quanto mais você espera que ele feche, mais ele demora pra isso. A quantidade de transeuntes do meu lado, também esperando para atravessar (acredito eu), aumentava cada vez mais.
Trinta e dois minutos. Observei uma velhinha simpática ao meu lado, que carregava uma bolsa amarela. Ela certamente não estaria com pressa para chegar ao outro lado. Valendo-se da matemática do sinal, será que o sinal abriria mais rápido pra ela? Se fosse o caso, certamente aproveitaria a oportunidade e atravessaria junto.
Trinte e quatro minutos. Analisei o outro lado da calçada: Ninguém queria atravessar para a minha calçada. Certamente o que todos queriam era chegar até lá, ninguém parecia muito interessado em voltar. Atravessar a rua se tornaria agora o meu desafio pessoal, a outra calçada era o meu El Dourado!
Trinta e nove minutos. Respirei. A larga avenida que me separava do meu destino era completamente movimentada. Atravessar com o sinal aberto era algo que estava completamente fora da possibilidade. Seria suicídio. Tentei me acalmar, não seria com afobação que completaria meus planos.
Quarenta e dois minutos. Tornei a olhar para o meu lado. A velhinha simpática da bolsa amarela não estava mais lá. Será que o sinal tinha se aberto especialmente para ela e eu não havia prestado atenção? Olhei para o outro lado da rua para confirmar minhas suspeitas, tentei localizar aquela velha desgraçada que eu tinha perdido de vista. Perguntei para uma mocinha de óculos que estava perto de mim se ela tinha visto onde a velha estava, ela me respondeu:
- Você estava com ela?
- Não, estou esperando pra atravessar também.
- Ah sim... – ela me olhou, duvidando da minha sanidade – Ela acabou de pegar um taxi.
Respirei alividada.
Quarenta e cinco minutos. A coisa estava se tornando insustentável. Comecei a analisar a avenida, cogitando a possibilidade de atravessá-la mesmo com o sinal aberto. Aquilo certamente seria suicídio, mas preferia morrer lutando do que ficar ali, esperando, como uma covarde.
Quarenta e oito minutos. Não agüentava mais, iria atravessar de qualquer maneira.
Cinqüenta minutos. Resolvi, iria. Coloquei meu primeiro pé fora da calçada, em direção a rua.
O sinal fechou.

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